Portugal 1 - Inglaterra 0


«Bem», disse ele, «os camones continuaram a subir a rua, pararam junto do Ângelo, que estava sentado no seu banco de madeira a experimentar a harmónica, um deles aproximou-se e disse girls, e fez com o braço o movimento respectivo, we want girls, o Ângelo disse girl é a tua mãezinha, estás a perceber ou precisas de explicador?, sim, a tua mãezinha, o camone riu-se para os outros, um deles avançou e fez uma espécie de passe à Fred Astaire, conta quem sabe, e de repente o Ângelo já tinha guardado os óculos e a harmónica no bolso, começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da Barbearia Hollywood, exactamente em cima do Pimentel, que estava a ser escanhoado pelo Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro no caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal, o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicílio, o Zuca diria mais tarde que Ricardito entre Chamas e Bandidos, a sua fita número um, ao pé daquilo não era nada.»


Dinis Machado, O Que Diz Molero


Assim ia a aliança luso-britânica em 1977. Estavam a jogar em casa. Mas, ainda assim, é um feito... 'bairristicamente' épico! O Que Diz Molero é a odisseia do Bairro Alto, da Bica e da Mouraria. Não há cá grutas de Calipso, há uma Barbearia Hollywood e a loja do Ventura. Adeus harpas! Olá harmónicas! E é se querem... senão levam já um grande murro nos dentes! Neste mundo, não há temores atrozes e inomináveis... não! A malta tem cagaço e come bolachas Maria. Há um Dick Tracy, pontapés e gente «positivamente distribuída ao domicílio», um Vampiro Humano que todos dizem ser o Bela Lugosi e que faz lembrar vagamente um Boris Karloff. E os sapatos... compram-se na Sapataria Popular. E mai nada!

O Que Diz Molero, de Dinis Machado (a.k.a. Dennis MacShade), foi publicado em 1977 e vendeu apenas... mais de cem mil exemplares. Eu sei porquê. :)

3 Responses so far.

  1. Ignatius Reilly says:

    Gosto mais dos Moleros do José Rodrigues Miguéis, Mário Dionísio ou do José Gomes Ferreira :-)

  2. Também gosto desses Moleros... mas este é o meu preferido.